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19/03/2020 - Pecuária

"Estamos numa zona cinzenta", diz Camardelli, diretor da Abiec


Em 2019, a Europa foi o segundo mais importante mercado comprador do agronegócio brasileiro, ficando apenas atrás da China. Do total de US$ 96,9 bilhões, a parte europeia foi de US$ 16,8 bilhões, valor equivalente a 17,5% do comércio. As exportações de carne bovina renderam US$ 588,8 milhões para 105,5 mil toneladas.

A importância do velho continente, mais do que volume e valor, está na importância do mercado como balizador de preço e qualidade do produto enviado. A Europa, de modo geral, importa determinados cortes mais valorizados. A China, por exemplo, importa praticamente o boi inteiro.

O surto de coronavírus, agora com epicentro em países europeus, levou os frigoríficos brasileiros a repensar suas estratégias. A consequência foi a paralização dos abates de parte da indústria frigorífica. A DBO conversou com  Antonio Camardelli, presidente da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec). Confira:

DBO – Qual a influência sobre o mercado da carne após a decisão dos frigoríficos em suspender o abate em parte de suas unidades?
Camardelli – Essa decisão foi tomada sem nenhum ponto olhando o futuro distante. Foi tomada cima das notícias do mercado internacional, do mercado local, do prejuízo concreto. As pessoas estão proibidas de circular na Europa. Tudo isso leva a um prejuízo fundamental na área de food service, que é um grande negócio. O food service é um negócio maior para alguns grupos, mas é importante para todo mundo.

DBO – Como a Abiec analisa o cenário externo, olhando para a Europa?
Camardelli –  Nós estamos olhando para o mercado. É esse o cenário. Lá fora há uma série de manifestações e de fatos concretos que te levam a ser prudente e não ser irresponsável. Eu não vou encher uma câmara com três mil, quatro mil bois e aí tentar vender. Com exceção da França e da Itália que pararam, se uma empresa fizer uma venda de um contêiner de filé mignon para a Alemanha ela vai processar quando estiver embarcando. Porque, a gente não sabe o que vai acontecer. Pode ocorrer que esse embarque seja suspenso por conta de uma decisão que o governo da Alemanha venha a tomar.Então, é preciso ser prudente com a minha capilaridade, tem que arrumar uma equação do que eu vendo e o que é factível em termos de comércio.

DBO – O sr. está dizendo que a indústria não pode pensar em estoque?
Camardelli – É uma irresponsabilidade fazer estoque. A gente está numa zona cinzenta, porque a exportação está extremamente complicada. A China vem retomando lentamente o mercado, mas, por outro lado há alguns outros problemas paralelos. Por exemplo, os armadores não vêm com contêineres vazios. Aí, é como se houvesse um bloqueio na cadeia de vários insumos – que não é o nosso caso por enquanto -, mas para esses contêineres há dificuldade de retornarem cheios. Então, alguns armadores têm tomado a decisão de voltar com contêineres vazios, mas é uma decisão de cada setor. Esse congestionamento nos portos, por conta da morosidade da China, também determinou que a gente tivesse prudência.

DBO – E quanto ao mercado interno?
Camardelli – No mercado interno é a mesma coisa. Alguns estados já decidiram e alguns ainda vão decidir que a única maneira, além de controlar grandes concentrações, é determinar algum tipo de restrição a acesso público, como a restaurantes por exemplo. Nós temos necessidade avaliações diárias. Grupos grandes, com mais frigoríficos, tomaram uma decisão antecipada que pode acontecer com grupos médios e com menor escala.

DBO – A Abiec está olhando também para os países Árabes, onde o Covid-19 causa desastres, como o Irã à beira de uma catástrofe?
Camardelli – Na verdade o Irã, por conta das sanções contra internacionais e as últimas intervenções, no último semestre o país reduziu de 31 para 5 plantas habitadas no Brasil. E ainda há poucos armadores para os portos do Irã. Por conta desse bloqueio, nós ainda mantemos o abastecimento do Irã via portos da Turquia, da Jordânia e de Dubai. E daí segue de caminhão para o país. Hoje, estamos trabalhando com uma ou duas empresas por conta das dificuldades financeiras. Ou seja, a ausência de dólar ou outra moeda forte inviabiliza o comércio. Assim, o Irã não é uma preocupação, hoje, embora a gente tenha todo o interesse nesse país. Não estou falando que eles não têm recursos, este é um problema de moeda. Em relação a outros países Árabe, a gente continua avaliando os cenários e acompanhando.

DBO – No caso da Rússia, um país historicamente oportunista que já criou muitos entraves às exportações brasileiras, qual é o atual cenário?
Camardelli – A Rússia, há vários anos, está em um processo tranquilo de comércio. Nós tivemos, fruto da decisão Russa, seis plantas habilitadas. Aí o mercado virou. A gente acredita que, como a Argentina era um fornecedor de um produto especial – da chamada vulgarmente vaca-conserva – para a Rússia e eles passaram a vender 80% para a China, houve um retorno ao mercado brasileiro. Recentemente, passamos para 9 plantas. Então o nosso mercado para a Rússia está fluindo normalmente. A expectativa é de aumentar as plantas, mas isso depende de negociações entre os dois serviços sanitários.

DBO – Com as recentes medidas dor órgãos de saúde no Brasil, visando achatar a curva da contaminação pelo Coronavírus, vocês acreditam que possa ocorrer uma paralisação curta, tipo férias dos frigoríficos, e que a partir daí as coisas comecem a voltar à normalidade?  Ou é totalmente imprevisível dizer qualquer coisa?
Camardelli – Nesse exato momento, acho que é prudente não falar qualquer coisa. O que a gente pode garantir, hoje, é uma boa vontade extrema. O  Ministério da Economia pediu um relatório específico das nossas dificuldades. Nesta terça-feria estivemos com o governo do Estado de São Paulo, porque as autoridades queriam saber como estamos nos  movimentando, que tipo de auxílio a gente precisa. A própria Ministra da Agricultura, Teresa Cristina, em uma ligação nesse dia à noite, teve o gesto da boa vontade de nos dar a seguinte notícia. No caso de falta de gente suficiente em algum frigorífico, de risco técnico, ela estaria resolvendo com equipes volantes. Isso demonstra uma vontade extrema de todo mundo de que as coisas se resolvam.

DBO – O sr. acaba de regressar da Argentina. A indústria frigorífica brasileira tem uma forte presença nos países do cone sul, especificamente Uruguai, Argentina e Paraguai. Há alguma ação em bloco da Abiec e das associações das indústrias desses países?
Camardelli – Não, ainda não. O que existe é que nós, por necessidade de ter um trabalho em grupo, há mais de 10 anos os ministros da Agricultura do Mercosul pediram que a gente fizesse um trabalho conjunto. Aí, a gente criou o Fórum Mercosul da Carne, onde estão todas as Abiecs do bloco, todas as CNAs, as Rurais. E nos encontramos para temas relacionados ao bloco. No caso do coronavírus, não estão sendo debatidas nenhuma questão e não há nenhuma reunião marcada. Não há nenhum movimento nesse sentido.

Por Vera Ondei
Fonte: Portal DBO




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