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30/03/2020 - Pecuária

"A China será o primeiro mercado a se recompor, em relação ao coronavírus", diz Camardelli, da Abiec


As exportações brasileiras de carne bovina vêm crescendo, na comparação com 2019. Nos dois primeiros meses, com dados fechados, foram 266,2 mil toneladas por US$ 1,1 bilhão. No ano passado, a venda do bimestre rendeu US$ 974,8 milhões, para 262 mil toneladas.

Março, no entanto, tem sido um período de muitas incertezas trazidas pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19). Embora o comércio continue, a Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec), vem monitorando dia a dia, mercado a mercado, os cenários global e interno. Para falar sobre esse momento, o presidente da entidade, Antonio Camardelli , concedeu a seguinte entrevista à DBO:

DBO – Qual a posição da indústria frigorífica nesse momento, depois da suspensão do abate em algumas unidades, e com o consumidor perdido em relação à pandemia do coronavírus?
Antonio Camardelli – Acho necessário esclarecer que, durante todo o ano, os frigoríficos – sejam eles pequenos, grandes ou médios –  fazem um avaliação da rentabilidade de cada planta. Porque uma pode ter mais habilitações, a outra pode estar localizada em estados em que não há tantas alternativas. Então, o fechamento de alguma unidade e férias coletivas em outras, vai ao encontro da avaliação dessa rentabilidade, do momento de mercado. Não há nenhuma conotação paralela a isso.

Por outro lado, na semana passada, fomos pegos de surpresa com uma queda bastante grande do consumo de fast food. E também, por consequência, do food service.

Nesta semana, o mercado se colocou de uma maneira mais estável. Mas ainda não conseguimos fechar uma avaliação de quanto o fast food foi substituído pelo delivery. Acredito que não houve mudança no processo de escala, mas os frigoríficos estão comprando de acordo com o vislumbre do mercado.

Em relação à exportação, a posição é bem simples: “nós só vamos comprar aquilo que estiver vendido”.

DBO – A virada do food service para uma venda mais firme em supermercados mexe nos custos de logística dos frigoríficos?
Camardelli – Acredito que não. Estamos interpretando mercado a mercado, dia a dia, processo por processo. Se o delivery vai substituir uma grande parte do food service, essa é uma questão que estamos tentando entender durante essa semana. Por outro lado, vemos um mercado normal de vendas nas grandes redes e tudo isso vai regulando o dia a dia do frigorífico.

Mas não temos nenhum comunicado sobre dificuldades da indústria, ou que haja algum processo que venha a determinar uma possível paralisação. Pelo contrário, a programado em relação a esse ano é de aumento da produção. Porque o trabalho já está todo feito no campo, pelos produtores rurais. A gente tem garantia de abastecimento em cima de dados concretos.

DBO – Em relação às exportações, por exemplo, o que esperar do mercado americano?
Camardelli – O mercado americano está aberto desde o dia 21 do mês passado e estamos nos preparando para fazer as primeiras exportações. Mas estamos fazendo ajustes para exportar, que são benéficos.

Apesar da liberação concedida, os frigoríficos tomaram a decisão de proteger o nosso mercado. Enquanto não tivermos um relatório, ou uma informação concreta da utilização da vacinação com a vacina modificada, que é estar sem a saponina e com 2 ml, decidimos não exportar cortes onde essas carnes são partes eleitas de vacinação, como acém e pescoço. Não vamos correr o risco de algum constrangimento futuro.

DBO – E a China?
Camardelli – A China tem retornado gradativamente, mas ainda nos deparamos com dificuldades de escala de contêineres para poder exportar. Isso é resultado do congestionamento dos portos chineses. Para não ter o que os armadores chamam de frete morto, eles não estavam retornando para o Brasil com contêineres vazios.

Mas isso já não aconteceu na semana passada. Armadores mandaram navios com contêineres vazios para poder repor e restabelecer o processo. Acreditamos que a China será o primeiro mercado a se recompor, em relação ao coronavírus.

DBO – Mas com a Europa essa história é diferente.
Camardelli – A Europa está parada, praticamente, por causa da decisão de vários países de proibir trânsito e fluxo de pessoas nas ruas. Com isso, houve um abalo direto no food service.  Em relação aos contratos, alguns foram cancelados e outros tiveram seus prazos redefinidos.

DBO –  A Europa é uma incógnita?
Camardelli – Gradativamente, a expectativa é que dentro do bloco comece algum processo, mas país por país. O que entendemos, nesse momento, é que no curto prazo não retornaremos as exportações para a Europa.

DBO – E em relação aos países árabes, grandes compradores e promotores da carne brasileira?
Camardelli – Dos povos árabes, não temos informações da evolução do novo coronavírus nesses países e as vendas continuam normais. O único entrave, e que já vínhamos exportando, pouco é o Irã. Mas tiro esse país do mundo árabe porque ele é do mercado persa. Com o Irã, por outras questões, como falta de dólar e sanções entre países, as exportações diminuíram consideravelmente.

DBO – As entidades de classe, como CNA, SRB, têm se aproximando do governo propondo medidas de ajuste da economia, nesse momento, levando em conta os setores do agronegócio. A Abiec está fazendo algum movimento nesse sentido, visando alguma medida setorial?
Camardelli –  Temos acompanhado e participado de alguns processos conjuntos com o governo. Desde o início, a ministra Tereza Cristina tem franqueado e ficado à disposição, dentro de um gabinete de crise.

Por exemplo, estamos em conversa com a área de logística. Mas mesmo antes do decreto de essencialidade, do governo, ela já vinha resolvendo problemas pontuais em estados e municípios. Sobre algumas atitudes legalmente tomadas por secretários de saúde, por exemplo. Também acompanhamos a pauta em relação a processos trabalhistas, com sugestões que seriam plausíveis para passar essa zona cinzenta.

DBO – Nas questões de defesa sanitária a indústria vai precisar de ajuda?
Camardelli – Antes da gente se manifestar, em uma reunião do conselho, na semana passada, a ministra disse que em caso de necessidade já estava preparado um contingente para suprir alguma reposição de veterinários e auxiliares. São equipes volantes. Mas, até o momento, não temos nenhuma reclamação por parte dos frigoríficos de que algum profissional tenha faltado.

DBO –  A Abiec fez algum movimento na área econômica?
Camardelli – No caso do BNDES, participamos de uma coletiva e vamos pleitear capital de giro. Estamos estudando o processo e monitorando a necessidade de que alguma empresa , ou todas, necessitem desse apoio.

Em relação ao ministério da Economia, estamos respondendo a uma documentação. Eles querem saber se estamos dando continuidade aos trabalhos e se está faltando algum insumo. Então, estamos plugados em todas as decisões do governo, em todas as oitivas que eles nos facultam. E aquelas que eles não nos facultam, estamos acompanhando.

Por exemplo, postergar o Imposto de Renda, por motivos óbvios. O ponto focal é a necessidade de diálogo para sabermos qual a melhor atitude para o setor. Vamos passar juntos por esse processo. Líderes da área bancária estão dizendo que vai ser uma crise dura, mas curta, e é essa a expectativa.

Por Vera Ondei
Fonte: Portal DBO




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